por Sandra Pereira Falcão (*)

Em meio à vida urbana acelerada, quase um impeditivo para observar o meio ambiente ao redor de nós, cada vez mais cidadãos revelam forte preocupação com a degradação do nosso espaço comum. Nas versões local e global, informações chegam a todo momento aos nossos olhos e ouvidos. Provêm de diversas fontes e transitam, de maneira ascendente, entre públicos diversificados: circulam nas ruas, nos domicílios, nas escolas e instituições religiosas, nas empresas, nas ONGs e associações várias — ligadas ou não ao poder público. Ampliam-se no município as esferas nas quais o cidadão pode ingressar para participar ativamente da melhoria do meio urbano ‒ orçamento participativo, audiências públicas, comitês de bacia, conselhos ambientais, cursos voltados à prática da cidadania.

Aparentemente, cresce a sensibilização em torno da busca por um modo de viver equilibrado, capaz de proporcionar bem-estar e ao mesmo tempo não extinguir os recursos planetários. Porém, se aplicarmos um olhar mais apurado ao derredor enquanto nos deslocamos pela cidade, o desequilíbrio socioambiental saltará à vista. Na Zona Norte, convivemos com inquietantes perdas em termos de saúde coletiva: a progressiva devastação do verde urbano intensifica as ilhas de calor em que se transformaram muitos de nossos bairros; o aumento expressivo do número de veículos nas ruas força-nos a respirar poluentes altamente cancerígenos enquanto fazemos nossa caminhada para “melhorar a saúde”; o depósito indiscriminado de lixo nas praças, avenidas, pés de muro (qualquer lugar que pareça “disponível”) transforma os esforços das equipes de limpeza urbana em enxugamento de gelo.

Moradores atentos e interessados na correção desses e outros problemas têm buscado os espaços de participação abertos pelo poder público, ora sentindo-se animados pela ação rápida de seus representantes, ora caindo em desânimo e desistindo de dialogar com eles por se sentirem em um monólogo. Se o cidadão não encontra eco, materializado em providências concretas que minimizem ou resolvam as dificuldades socioambientais de sua comunidade, sente ruir sua confiança nos órgãos de administração local e se afasta das instâncias democráticas participativas. A quebra repetida (ou ausência antecipada) de confiança é um dos fatores responsáveis pelo baixo índice de presença dos moradores nos conselhos locais (participativo, ambiental e outros), segundo temos apurado em nossas pesquisas.

Outra dificuldade diz respeito à Espiral do Silêncio. Trata-se de teoria proposta por Elisabeth Noelle-Neumann (cientista política alemã), para explicar como e por que o discurso majoritário, sempre presente nas janelas de participação pública, intimida os cidadãos em conversas políticas. Estes se veem, assim, desconfortáveis em razão do medo e da estranheza passíveis de emergir durante as interações abertas, o que inibe ainda mais sua capacidade de posicionamento. Não podemos nos furtar, portanto, à observação de que — mesmo chamados a opinar/debater/contribuir para a melhoria da esfera pública ambiental urbana — alguns cidadãos sequer iniciam sua participação ou, se o fazem, não persistem na atitude participativa, em virtude de se sentirem acuados pelo tipo de discussão aí promovido.

Tais (im)possibilidades arrefecem o interesse do munícipe e até mesmo o levam ao alheamento total em relação à problemática socioambiental da cidade onde mora. Diante desse cenário, vale destacar a fala de Peter Dahlgren (estudioso das relações entre mídia e democracia), quando afirma o potencial da conversação para se inclinar em direção a algum engajamento político. Importa incentivar a conversação — e ela nada mais é que abraçar o diálogo polifônico capaz de nos conduzir a uma democracia ambiental com qualidade de vida para todos.

Alcançar esse estágio ideal, sobretudo nos grandes centros urbanos, depende do estímulo à proatividade cidadã, a partir das conversas abertas e incentivadoras de um olhar coletivo vigilante, que perceba, priorize e replique as boas práticas (individuais e coletivas, públicas ou privadas) — como parte de uma cultura socioambiental a internalizar-se entre nós com a máxima urgência. Tal mudança de parâmetros requer, por fim, um esforço comunicacional maior que o atual. Se a pergunta agora é quem deve fazer esse esforço, a resposta plausível indica que não um grupo social ou outro, isoladamente, mas todos nós, ao mesmo tempo, quaisquer sejam as nossas redes de pertencimento.

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(*)  Sandra Pereira Falcão é doutoranda em Ciências da Comunicação na ECA-USP. Moradora da Zona Norte/Nordeste e colaboradora-participativa no CADES, Conselho Participativo Municipal e outros eventos da região. Desenvolve, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pesquisa sobre Interfaces Colaborativas Socioambientais. Participe através do link :

                               https://goo.gl/forms/uxdIsoOxB8jAaQGu2

Nota da Redação: Os artigos publicados neste espaço “Opinião” são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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