por Aguinaldo Gabarrão (*) 

Em off a gravação da voz de Zeca Baleiro recita um poema contundente. Ele fala de dor, mas também de esperança. Pode-se entender como o mote do espetáculo Pedras Azuis, nome do vilarejo fictício castigado pela seca onde um casal de sertanejos e um estranho de São Paulo vêem seus destinos se cruzarem.

Antero: – “Eu sou o homem da água”

A trama inicia com a decisão da prefeitura de dispensar os serviços de transporte de água realizado por Antero ao comprar um caminhão pipa próprio para essa atividade. Sem ter outro trabalho para alimentar sua esposa Diana e os quatro filhos, ele resolve tomar uma atitude que causará a mudança na vida de todos à sua volta.

A dramaturgia foi desenvolvida com competência por Márcio Macena, que também assina a direção do espetáculo, cenário e figurinos. Sua fonte de inspiração foi o texto “27 carros de algodão” de Tennessee Williams (1911-1983) escritor, poeta e um dos maiores dramaturgos americanos do pós-segunda guerra. Macena optou em situar a história no ambiente realista do sertão nordestino, com diálogos que pudessem se aproximar do linguajar característico da região. Cabe ressaltar o importante trabalho de Samuel de Assis, na pesquisa da prosódia (emissão dos sons da fala, entonação) que deram verossimilhança aos diálogos.

Diana: – “Deus é por nós!”

A influência do dramaturgo americano também inspirou o autor na construção do drama familiar, explorados nas distorções que surgem da relação do casal com o homem que vem de São Paulo. Porém, Diana, inspirada na personagem Flora, do original de Williams, tem personalidade muito adversa: é introspectiva, sonhadora, religiosa e vítima do machismo e do assédio moral do marido. Ela passa longe das ambiguidades da infantilizada Flora, conivente em ser um objeto sexual nas mãos de outro homem.

A encenação e cenários concisos ampliam a sensação de crueza do ambiente e das motivações daqueles dois homens que se relacionam com Diana, cada qual tirando proveito da mulher à sua maneira. E respeitadas as escolhas do diretor, em alguns momentos a dinâmica da peça torna-se entrecortada, sucedendo-se cenas como quadros.

Homem: – “Uma mão lava a outra”

Apesar disso, o diretor conduz com habilidade os atores para o mesmo trabalho de concisão e introspecção apresentado em diversos elementos já citados da encenação, o que eleva o clima de tensão e permite aos intérpretes explorarem os muitos silêncios e subtextos reveladores. E, nesse ponto, as diferenças do elenco são evidenciadas. Os atores Emanuel Sá, Neto Mahnic e Annelise Medeiros estão com disposições e focos diferentes em cena. O destaque fica por conta de Annelise, que compõe a personagem Diana de forma interiorizada e pungente.

A encenação conta ainda com um off gravado por Mel Lisboa que confere a peça um momento documental ao citar os números da violência no ambiente doméstico contra a mulher.

O espetáculo “Pedras Azuis” soma-se a outros espetáculos no circuito paulistano, que discute o problema extremamente atual das várias formas de violência contra a mulher. E enquanto esse e outros temas se constituírem em feridas na sociedade, o teatro sempre terá dramaturgos e intérpretes para provocar e reverberar na cena a aridez da nossa alma.

FICHA TÉCNICA 
Texto, direção, cenário e figurino: Marcio Macena
Elenco: Annelise Medeiros, Emanuel Sá e Neto Manic
Direção de Produção: Fernando Rocha

Voz em off: Zeca Baleiro /  Trilha sonora: Felipe Roseno e Federico Puppi / Intérprete especialmente convidada: Maria Gadú / Desenho de Luz: Cesar Pivetti e Vania Jaconis
Direção de Movimento: Fabrício Licursi /  Prosódia: Samuel de Assis
Operador de Luz e Som: Jonas Ribeiro / Fotos: Leekyung Kim
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio / Design Gráfico: Fabio Acorsi

SERVIÇO:

Pedras Azuis

Onde: Viga Espaço Cênico – Rua Capote Valente, 1323, (próximo ao Metrô Sumaré)

Sala Piscina – Telefone: (11) 3801-1843

Quando: de 6 de setembro a 16 de outubro de 2017

Horários: quartas e quintas, às 21h – Duração: 60 min

Ingressos: R$50 (inteira) e R$25 (meia-entrada)

Classificação: 16 anos  —  Lotação: 35 lugares


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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