por Alarico Rezende (*)

== Raízes do Brasil === Estamos de volta com Raízes do Brasil, aqui no DiárioZonaNorte, abrindo espaço para contar um pouco a história de dois irmãos, mineiros, que trocaram a tranquilidade das Gerais para ganhar o mundo na cantoria, vindo de mala e cuia para São Paulo, são eles Pena Branca e Xavantinho, dupla de muito carisma na música caipira. Eles moravam na Rua Francisco Rodrigues (próximo da Luiz Stamatis), no Jaçanã, que não deixa de ser mais uma homenagem aos 147 anos do bairro.

“Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão…” (trecho de O Cio da Terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque, marca registrada de Pena Branca e Xavantinho)

Dois mineiros bons de viola e cantoria. Os irmãos Pena Branca e Xavantinho, que foram considerados uma das maiores duplas caipiras do Brasil, cantando a genuína música caipira.

Pena Branca e Xavantinho experimentavam nos últimos anos o gosto de um sucesso tão grande que ainda tremiam na base com o grande público nos shows. Antes, segundo contaram, cantavam para 30, 40, 50 pessoas. Um número bem diferente dos últimos anos.

Naquela entrevista que fiz com eles nos anos 1990 (na época como repórter do Diário Popular, do caderno semanal “Diário Sertanejo”), na região do Tremembé, ressaltaram a importância de um público fiel. “É interessante o que acontece hoje com a gente. A nossa música caminha de pai para filho. Os jovens chegam pra gente querendo conferir de perto aquilo que ouviram dos pais. Isso só nos enche de orgulho”, contou Pena Branca, acrescentando que ainda tremia nas pernas quando subia no palco com o irmão Xavantinho para cantar para mais de 10 mil pessoas. Xavantinho completou dizendo que “a arte é isso, é essa sensibilidade que o artista tem, é uma troca de energia”.

Um caminho espinhoso === Mas para eles a coisa não foi moleza, não. Pena Branca e Xavantinho relembraram o início da carreira, que definem como muito espinhoso. “Em 1961, quando a gente começou, foi muito difícil, foi espinhoso. E espinho a gente tem a vida inteira. Isso aí é assim mesmo. A gente tem de pedir a Deus para desviar desses espinhos. O resultado desse esforço é compensador, é bom demais. O trabalho de música que a gente vem fazendo, aquela coisa toda. É uma coisa que muita gente deixou de fazer. Então, nós somos garis, vamos recolhendo as coisas que foram jogadas fora, mas vamos formar o nosso cardápio”, explicou do seu jeito simples Pena Branca.

Quem estendeu a mão à Pena Branca e Xavantinho no início da carreira, segundo contaram, foi Roberto de Oliveira, que é irmão de Renato Teixeira, através de trabalhos que faziam em Aparecida do Norte. “Nós gravamos em 1980, quando participamos de um festival na Globo, apoiados pelo Roberto de Oliveira. Esse disco foi lançado pelo selo Rodeio, hoje da Warner”, relembraram os irmãos.

Abertura no Som Brasil === Outro grande impulso foi dado por Rolando Boldrin, no programa “Som Brasil”, da Rede Globo. “Depois, veio essa mão forte que é Rolando Boldrin, que nos levou para cantar no “Som Brasil”. Ele sempre levava a gente em shows que fazia. Ele adotou Pena Branca e Xavantinho, dizendo: Vocês vão fazer isso, vão fazer aquilo. E nós fomos seguindo as suas indicações, ainda mais partindo de uma pessoa que nem ele, um monumento. O Boldrin até hoje é muito amigo da gente”, ressaltou Pena Branca. O segundo disco que fizeram foi “Uma Dupla Brasileira”, numa produção de Rolando Boldrin. Ainda na Continental/Warner gravaram mais dois discos: “O Canto Violeiro” e  “Cantadô de Mundo Afora”.

Na carreira da dupla foram gravados dez LPs (até abril de 1997). Depois gravaram “Pingo d’água”, faixa-título, de João Pacífico, lançado pela gravadora Velas. Mas a marca patente da dupla é o Cio da Terra, de Chico Buarque e Milton Nascimento, que gravaram com participação especial de Milton, música que foi incluída no CD “Pingo d’água”.

Arrancada para o exterior === A amizade com Milton Nascimento contribuiu para a popularização de Pena Branca e Xavantinho, o que justificava o apreço pelo compositor mineiro. “Milton chegou e emprestou a voz também em O Cio da Terra, que é dele e do Chico Buarque. Essa música já nos levou aos Estados Unidos duas vezes. Já fizemos diversos shows juntos, cantando Cantiga de Caicó, San Vicente. Depois participamos de um show de Mercedes Sosa no Palace, cantamos com ela O Cio da Terra. Naquele tempo dupla caipira era difícil cantar no Palace. Até o pessoal diz que Chitãozinho e Xororó foi a primeira dupla a cantar no Palace. Acho que se esqueceram que a gente esteve lá com Mercedes Sosa”, relembraram Pena Branca e Xavantinho.

Da viagem aos Estados Unidos, Pena lembrou que, principalmente em Nova York, tem muito brasileiro lá. “Num show em Nova York a gente até brincou, dizendo: Ê Governador Valadares! Parecia que a cidade estava toda lá. Isso foi muito bom”, observou Pena Branca, acrescentando que não só o brasileiro ia aos shows, o americano também. Mas se sentiram em casa também em Miami, que até no aeroporto foram reconhecidos por brasileiros. “Até disse pro mano: poxa, aqui estamos em casa.”

Mineiro também perde o trem… ==  Há quem diga que mineiro não perde trem, mas Pena Branca tem outra versão para a história. “Tinha um camarada lá de Uberlândia que disse que arrumaria o dinheiro do primeiro disco, que a gente não sairia com uma mão na frente e outra atrás. Falou que ia na estação levar os 150 do disco. Aí despedimos da família, dos amigos e fomos pra estação esperar o camarada. Sei que o trem chegou e foi embora e nada do sujeito nem do dinheiro. Depois ficamos sabendo que ele perdeu os 150 numa noite de baralho. Só viemos para São Paulo em outra série”, contou bem-humorado Pena Branca.

Xavantinho lembrou que certa ocasião foram levados por um sujeito para fazer um disco numa noite. “Saímos do estúdio de manhã e, quando fomos procurar um lugar para comer, levamos o maior susto. Fomos abordados por policiais num tanque de guerra. E eles, de metralhadoras, nós de mãos na cabeça. Mostramos o bagageiro do Opala. Mesmo assim tivemos de dar explicações na delegacia. Mas o delegado foi gentil e nos liberou. Soubemos que eles procuravam um Opala igual ao que estávamos”, relembrou emocionado Xavantinho.

O último disco da duplaO último trabalho musical dos irmãos Pena Branca e Xavantinho é “Coração Matuto”, o décimo quarto disco. A carreira foi interrompida pela morte de Xavantinho. Nessa conta, estão incluídos dois discos de coletâneas.  “Coração Matuto” foi lançado no Tuca, na capital paulista, nos dias 24 e 25 de abril de 1998, com participação especial de Guilherme Arantes e Renato Teixeira.

A dupla já pensava no repertório para mais um disco no começo de 2000. Mas a trajetória foi mudada repentinamente pelo destino, ou melhor, Xavantinho teve sua saúde agravada. Ele que em 1985 sofreu acidente de carro na Via Dutra, que o deixou paralítico. A partir dali Xavantinho tinha de passar por sessões de fisioterapia, mas a maior parte de seus dias passava sentado numa cadeira de rodas, contudo sempre cercado de muito carinho de seus familiares.

Discografia – Encontro de Bandeiras, O Cio da Terra, O Grande Sertão, Mazarop! – Música Incidental: Luar do Sertão,Vaca Estrela e Boi Fubá, Penas do Tiê, Fábulas de Carreiro – Pena Branca e Xavantinho, Trote Magoado, Vento Violeiro, Samba de Roda, Eu, a Viola e Deus, Cuitelinho, Cálix Bento, Casa de Barro.

Xavantinho saiu do combinado  == Numa quarta-feira de outubro de 1999, dia 6, Xavantinho foi internado no Hospital Nipo-Brasileiro, na zona norte da capital, já com um quadro de enfarte. Sexta-feira, dia 8, com problemas respiratórios Xavantinho teve uma parada cardíaca, o que provocou falência múltipla dos órgãos.

Com a morte de Ranulfo Ramiro da Silva, o nome de batismo de Xavantinho, de 56 anos, foi interrompida uma bonita carreira de dois irmãos, que um dia trocaram a roça de um arraial de Uberlândia pelo sonho do sucesso na capital da música do País, São Paulo.

Quando estive na casa deles, em fevereiro de 1999, Xavantinho falava de sua emoção de ter gravado com Milton Nascimento: Meu Deus do céu , será que é a última vez que nós vamos cantar juntos. Deu aquela coisa ruim. Me deu um momento de choro principalmente por estar lá acariciando o mano véio. Aí  o Milton veio me consolar: que é isso?!?, pare de chorar. Aí pararam as lágrimas. Ele é a pessoa que a gente respeita, é a fonte onde a gente bebe”, contou, na época, com a voz embargada Xavantinho.

O corpo de Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, foi velado a partir das 21 horas de sexta-feira e sepultado no sábado, às 15 horas, no Cemitério Parque dos Pinheiros – zona norte da capital paulista – ou seja, no dia 9 de outubro de 1999.

CD solo de Pena Branca –“Semente Caipira”, lançado na metade de 2000, é título do primeiro disco de Pena Branca sem o irmão e parceiro de cantoria Xavantinho – que morreu em outubro de 1999. Mesmo assim, Pena Branca conseguiu gravar um disco para cima, “como gostaria Xavantinho”, contou emocionado.

O grande destaque da carreira solo foi o disco “Semente Caipira”, com o qual Pena Branca ganhou o Grammy  Latino, em 2001. Pena Branca gravou com outros intérpretes, dentre eles Daniel, Chico Lobo, Orquestra de Violeiros de Uberlândia.

Discografia de Pena Branca – carreira solo: Semente Caipira (2000), Pena Branca canta Xavantinho (2002), Cantar Caipira (2008).

O silêncio da Viola ==  Por volta de seis e meia, final da tarde e começo de noite, de 8 de fevereiro de 2010, uma segunda-feira, o cantor e compositor Pena Branca faleceu na capital paulista. Ele que por muitos anos formou dupla com seu irmão Xavantinho. Ele estava na cozinha de sua casa, no Jaçanã, assistindo tevê, quando sentiu-se mal e caiu. Já havia reclamado à esposa Maria de fortes dores no peito momentos antes.

Pena Branca tinha como nome de batismo José Ramiro Sobrinho, saiu dos combinado aos 70 anos, vítima de infarto.
Uma estrada caipira de sucesso de dois irmãos mineiros chegava ao  final ali, uma dupla genuína, de  muito carisma por todos os cantos do País, até mesmo no meio artístico. Foram várias entrevistas, alguns cafés no bule que tomamos com eles ali na Rua Francisco Rodrigues, no Jaçanã, última residência da dupla. Ficam os discos, clássicos  da música sertaneja-caipira. Para este jornalista-compositor foi muito bom ter conhecido e entrevistado Pena Branca e Xavantinho, que conhecemos na Rádio e TV Cultura nos anos 1990, na época fomos apresentados por Thaís Almeida Dias, que era produtora de Inezita Barroso.
Bem, amigos, ficamos por aqui, logo a gente volta com mais um dedo de prosa em Raízes do Brasil no DiárioZonaNorte.  Acompanhe-nos nas páginas do jornal Brasil Raiz mensalmente e na Rádio Brasil Raiz: www.brasilraiz.com.br  e www.radiobrasilraiz.com.br.

Abaixo o programa “Ensaio” da Tv Cultura na entrevista e perfil da dupla Pena Branca & Xavantinho, com 01hora06minutos:


(*) Alarico Rezende —  jornalista-compositor-intérprete, edita mensalmente o jornal cultural Brasil Raiz e toca com dedicação a Rádio Brasil Raiz na web:

 www.brasilraiz.com.br e www.radiobrasilraiz.com.br

Leia mais sobre Alarico Rezende na matéria do DiárioZonaNorte: “Alarico Rezende, o caipira que veio montar sua rádio sertaneja na Capital” (13/08/2017) — é só clicar aqui

       N.R.: os artigos serão publicados quinzenalmente, aos sábados.                Excepcionalmente está sendo publicado nesta 2ª feira (02/10/2017).


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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