por Aguinaldo Gabarrão (*)

O filme “Primavera em Casablanca” inicia com um provérbio Berbere: “Feliz é aquele que pode agir conforme os seus desejos”. E o que vemos ao longo das quase duas horas de exibição é a busca do sentido dessa frase, aspiração do ser humano, independente das fronteiras existentes.

A vida de um professor nas montanhas do Atlas se entrelaça trinta anos depois à existência de outras quatro pessoas na cidade de Casablanca. Cada um com seus sonhos, desafios e lutas particulares diante da intolerância numa cidade que caminha para a revolta popular.

“De que vale a língua se calamos as vozes?” === O roteiro, bem amarrado, consegue fazer as diversas conexões entre passado e presente e relacionar a luta do professor Abdellah (Amine Ennaji) às personagens do presente: Salima (Maryam Touzani), que deseja maior controle sobre sua vida; Hakim, (Abdelilah Rachid), um cover e fã de Freddie Mercury que busca o seu espaço como cantor; Joe (Arieh Worthalter), um judeu dono de restaurante que vive solitário com o pai, e Ines (Dounia Binebine), adolescente que desperta para a sexualidade entre a modernidade e a tradição dos costumes.

Essas pessoas que vivem em Casablanca estão distanciadas, aparentemente, por suas vidas e situações particulares, mas tem em comum o mesmo desejo de liberdade e de fazer suas escolhas. Porém, assim como o professor que é tolhido em sua forma de aplicar a aula – ele é obrigado a ensinar em árabe, enquanto os alunos falam apenas o dialeto berbere – cada um desses personagens igualmente encontra situações-limite que irão provocá-los à mudança.

“Seus passos ecoam além da montanha” === O diretor Nabil Ayouch já havia causado muita polêmica em seu país com o filme “Muito Amadas”, que fala do universo de quatro prostitutas, repudiadas pelas famílias e que se unem pela necessidade de afeto e sobrevivência. O filme, além das duras críticas de religiosos, foi banido do Marrocos e a atriz Loubna Abidar, agredida fisicamente, foi obrigada a deixar o país após sofrer ameaças de morte.

Mesmo com esse cenário hostil, Ayouch aprofunda em “Primavera em Casablanca” – alusão aos acontecimentos políticos e sociais que varreram o mundo árabe – a questão da busca pela liberdade e justiça social em contraposição ao rigor dos fundamentalistas religiosos e do governo monárquico existente no Marrocos. Por essa razão, o filme, permeado de trechos pontuais de poesia, reitera esse desejo de ter o controle sobre a própria vida.

Encantamento desfeito === O filme Casablanca (1942), citado por Ilyas, empregado de confiança de Joe – o dono do restaurante – tem algumas cenas inseridas, o que ajuda a criar uma aura de glamour, como uma forma de trazer o encantamento que, na verdade, só existe nos estúdios de Hollyood, muito longe da Casablanca real, onde jovens não tem empregos e oportunidades de uma vida melhor. E logo, até essa ilusão irá desfazer-se.

O elenco afinado tem a presença da roteirista Maryam Touzani, que além dessa função compartilhada com o marido e cineasta Nabil Ayouch, assumiu para si a tarefa de interpretar Salima e, de certa forma, dar voz às mulheres de seu país.

Provocação necessária === Assistir ao filme Primavera em Casablanca é uma calorosa surpresa por mostrar que a grande revolução começa intimamente, de forma quase silenciosa, mas que ao se unir aos sentimentos comuns de outras pessoas, mesmo distantes no tempo, torna-se uma força com grande potencial para que todos façam valer os seus direitos.

E até o momento final, o diretor Nabil Ayouch, provoca o público quanto às possibilidades e escolhas para reescrever-se a própria história.

Assista ao trailer do filme:


FICHA TÉCNICA

PRIMAVERA EM CASABLANCA – (Título original: Razzia) – Distribuição: Califórnia Filmes

Direção: Nabil Ayouch / Roteiro: Maryam Touzani e / Nabil Ayouch / Direção de Fotografia: Virginie Surdej / Trilha Sonora: Guillaume Poncelet / Montagem: Sophie Reine / Produção: Bruno Nahon

Elenco: Maryam Touzani, Amine Ennaji, Saadia Ladib, Arieh Worthalter, Abdelilah Rachid, Dounia Binebine, Abdellah Didane, Kamal El Amri, Lyna Bennani, Maha Boukhari

Gênero: Drama / Duração: 1 hora e 59 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 14 anos / País: França, Bélgica, Marrocos / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 12 de Julho de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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