por Conceição Lourenço (*)

Para encerrar o mês da Amizade, vou me lembrar de um fato curioso. Todas as minhas amigas são de fundamental importância na minha vida, mas esta, Clementina Souza, foi a sétima delegada nomeada no Estado de São Paulo e a primeira negra.

Eu ainda era estudante, começo dos anos 80, e uma vizinha muito querida foi infeliz ao dar uma festa muito farta, tão farta que não refrigerou a comida corretamente. Conclusão: metade dos convidados com intoxicação alimentar foi parar no Pronto Socorro do bairro. Virou um caso de Polícia.

Na manhã seguinte, eu e mamãe estávamos na casa da vizinha, quando chegou a delegada. Uma mocinha negra, tailler cor-de-rosa, pernas grossas, cabelo curtinho, sotaque mineiro forte, muito séria (claro), pra interrogar a dona da festa, que não tinha condições emocionais de ir à Delegacia.

Foi firme o tempo todo, mas se sensibilizou, chamou o Adolfo Lutz (Instituto de Patologia e Pesquisas da Universidade de São Paulo), recolheu a comida, e sem sorrisos foi embora.

Eu fiquei paralisada. Ela me impressionou demais. Nunca havia visto uma delegada, quanto mais negra. Se essa mocinha negra conseguiu, eu também poderia. Muitas vezes me lembrei dela quando queria desanimar na minha carreira. Ela foi fundamental na minha trajetória profissional, um exemplo pra mim…

Hoje conto isso pra ela, que ri gostoso e diz que mal lembra desse episódio, mas confirma que dava plantões na delegacia do meu bairro (45º DP), naquela época. Mais de 30 anos depois, moramos perto, nos frequentamos, estamos até pensando em fazer uma parceria,  parece mentira… e tudo foi natural. Ela é amiga de uma amiga e fomos nos aproximando.

É  divertida e cozinha muito bem. Outro dia, quando perguntei a ela se podia contar esta história, me respondeu rindo: “Tá pensando que eu sou Roberto Carlos?”, rimos mais ainda.

Por anos acompanhei de longe, via imprensa.  Quando o bairro Jardim Ângela estava no auge da violência, Dra. Clementina foi destacada para lá, em poucos meses reduziu a mortalidade em grande parte (se bem me lembro era o terceiro bairro mais violento do mundo, na época, perdia pra Soweto, África do Sul, e Harlem, Estados Unidos) .

Me contou como foi, mas, apesar dela não ser Roberto Carlos, não perguntei se posso falar disso. Espero, de coração, que as jovens de hoje possam estar na casa de alguma vizinha para serem surpreendidas da maneira como eu fui. Para conhecer pessoas inspiradoras, como eu conheci!


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: às 6ªs. feiras >>

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