por Aguinaldo Gabarrão (*)

Lançado nos cinemas brasileiros em outubro de 2014, “Relatos Selvagens”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015, ainda está em temporada na cidade de São Paulo. Mas, o que faz esse filme permanecer tanto tempo em cartaz? Além das qualidades do roteiro, direção, atores e produção, é preciso considerar outro aspecto, o mais comum e destruidor sentimento humano: a vingança. E dramaturgos sempre souberam explorar direta ou indiretamente com enorme sucesso esse tema em suas obras. Alguns desses exemplos encontramos em Eurípedes (480 a.C – 406 a.C) na tragédia grega Medeia; Alexandre Dumas (1802 – 1870) com o romance O Conde de Monte Cristo e, na televisão, João Emanuel Carneiro com a novela Avenida Brasil exibida em 2012.

Relatos Selvagens explora essa temática ao apresentar uma avassaladora sequencia de seis histórias com personagens que respondem de maneira violenta e inesperada, a partir de situações limites: a traição amorosa, uma tragédia familiar, uma discussão no trânsito e outras circunstâncias que, no instante seguinte detonam sentimentos instintivos de destruição, perversidade, revide e o mais profundo egoísmo. E tudo isso faz rir, porque o público ao observar os acontecimentos, de certa forma se vê na tela ou ri das tramas bem construídas e com finais surpreendentes.

Escrito e dirigido pelo argentino Damián Szifron, tem na produção a mão do cineasta Pedro Almodóvar, fotografia de Javier Julia (O último Elvis) e a trilha de Gustavo Santaolalla (Diários de Motocicleta). Um time de primeira qualidade que garante a caprichada produção.

Hábil, Szifron constrói cada episódio de forma independente, respeitando a estrutura formal do roteiro com começo, desenvolvimento e clímax. Porém, à sua maneira, apresenta em cada um desses universos particulares, a representação do meio social onde suas personagens interagem, com regras de aparente civilidade.

Ao surgir o fato que causará o inconformismo, a ira e o conseqüente revide, o diretor propõe uma interessantíssima questão: onde está realmente a selvageria? Nas reações desenfreadas de cada envolvido ou na insanidade de todo o conjunto, disfarçado com o verniz social do politicamente correto, que leva a essas atitudes?

Atores experientes como Ricardo Darín (O Segredo dos Seus Olhos), Oscar Martinez (O Cidadão Ilustre) e a atriz Rita Cortese, que interpreta uma assustadora cozinheira, associados ao talento de jovens intérpretes como Érica Rivas (a noiva), dão um todo harmônico na direção segura de Szifron e, mostra a capacidade do cinema argentino, ao trazer para a tela temas comuns com muito talento e ousadia.

À parte alguns exageros escatológicos dispensáveis, o ótimo roteiro do diretor Damián Szifron usa a sátira ácida para mostrar que todos nós, em situações limites, podemos trazer à tona o que há de mais cruel guardado em nosso íntimo, numa fração de segundos, tornando-nos uma barbárie incontrolável e risível.

SERVIÇO

Relatos Selvagens

Onde: Caixa Belas Artes – Sala Oscar Niemeyer

Rua da Consolação, 2423 – Consolação / Telefone: (11) 2894-5781

Lotação: 132 lugares

Quando: sábado, às 22h30 (confirme o horário)

Duração: 2h02 min.

Classificação indicativa: 14 anos

Clientes CAIXA têm 50% de desconto. Apresente seu cartão do banco.

Assista o trailer do filme: www.youtube.com/watch?v=Dgs8d78EKeQ


(*) AGUINALDO GABARRÃO –  ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também em treinamento corporativo, usando o teatro como ferramenta didática em sala de aula. Das peças que escreveu, atualmente está em cartaz com “Cândido, uma Poética Espiritual”.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

aniversario bergamini

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here