por Conceição Lourenço (*)

Nesta semana, reservaremos um dia pra celebrar oficialmente nossos mortos, 2 de novembro. A  realidade da morte me visitou bem cedo. Perdi o Sebastião, papai,  ainda bem nova, aos 7 anos. Ele morreu em casa, eu vi tudo (outra hora falo sobre isso).

Mas mamãe fez de tudo para tocar a vida pra frente com as 3 filhas, duas menores de idade, e conseguiu. Meu pai além de colecionar discos e livros, também colecionava amigos. Amigos que ficaram tão órfãos quanto eu. Além de afetuoso e carinhoso, ele era muito generoso. Fazia ação de cesta básica pelo bairro. Coisas que ainda não eram “moda” na época, anos 1960.

Mesmo ele não estando mais na nossa casa, era comum algum amigo aparecer, de vez enquanto, pra ficar falando dele, relembrar. Fazendo-nos sentimental novamente. Mas desses amigos existia um, o compadre Tico (Edmundo), que só aparecia na véspera de Natal.

Aquele cheiro maravilhoso de assado pela casa e ele fazia questão de cumprimentar todos e em seguida: “Comadre, coloca aquele disco, por favor…”, o disco poderia ser Jamelão, Canta para Enamorados, ou o sax do Saraiva, ou bandolim do Jacó, mas sempre era Jamelão (sim, Jamelão começou como cantor romântico, muito bom ).

Tanto fazia, ele queria chorar. Coitado. Perder amigo é muito ruim. Ele não entendia que naquela casa todas queriam tocar a vida pra frente (ainda hoje ouço esses discos, com saudosismo, mas sem chorar). Quando finalmente ele ia embora, reclamávamos muito, etc. No ano seguinte, quando ele demorava pra chegar no 24 de dezembro a gente sentia falta.

Enfim, mais de 50 anos depois, dia desses, num evento do meu trabalho, eu encontrei um rapaz (Watanabe) irmão de uma amiga maravilhosa que morreu precocemente aos 30 anos. Não deu outra: “Você não é o irmão da Izumi, a dentista? Éramos muito amigas, fizemos o colegial juntas. Fizemos exame juntas no Detran pra tirar carteira de motorista. Ela brigou com o instrutor kkkkk: ‘manobro caminhão em ladeira, como o senhor me reprova?. Falou isso e abriu aquele sorrisão.

Ai, até hoje não acredito no que aconteceu com ela” e blá, blá, blá. Falei, falei, falei que ele começou chorar, e se desculpou assim: “Quanta coincidência, ontem minha mãe não passou bem, chorou muito, e hoje me encontro com você…”. Fiz a mesma “meleca” do compadre Tico, a quem eu peço perdão, agora entendo ele. Fazer isso é só uma maneira de estarmos mais perto de quem a gente ama… Só isso!


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


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