por Juliano Dhui (*)

=== Não bastassem as dores pelas quais o mundo já passa, fomos surpreendidos por mais um golpe: a decisão tomada pelo Juiz Federal Waldemar Cláudio de Carvalho, que no último dia 15 concedeu uma liminar que permite psicólogos tratarem gays e lésbicas como DOENTES e fazerem terapias de “reversão sexual” sem que sofram censura nem sanções pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Mesmo sabendo que, desde 17 de maio de 1990, a Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de classificar a homossexualidade como doença mental, e que o Conselho Federal de Psicologia do Brasil deixou de tratar a orientação sexual como doença em 1985, um grupo de psicólogos entrou com um pedido de suspensão da resolução 01/1999 do CFP, que norteia os psicólogos em suas atuações nas questões relativas à orientação sexual.

De repente, “não mais que de repente”, algo que já era internacionalmente reconhecido como fator não patológico ganha novamente status de doença  por decisão de um juiz no Distrito Federal,  o que certamente incitará as dores do preconceito, dos ataques, das agressões físicas e psicológicas.  É a violência da homofobia ganhando reforços, pois quando se violam os direitos humanos, contribui-se para a degradação da harmonia e entramos novamente em involução.

Que bom que, em meio a exemplos de regressão, podemos contar com atitudes e espaços de EVOLUÇÃO. Estou falando aqui de todos os espaços de debates e de vivências que acolhem a novidade e a diversidade, para deles fazer brotar coisa boa, buscando superar preconceitos, construir consciência, dar espaço para superações e crescimento. Assim, nasceu no Ginásio Darcy Reis, sob a Supervisão de Esportes da subprefeitura Vila Guilherme/Vila Maria/Vila Medeiros, um espaço de prática esportiva que ultrapassa tão somente a questão do exercício físico, sendo um espaço de vivência, descoberta de novos amigos, exercício do respeito e da diversidade.

Desse modo, a prática do voleibol tem sido uma experiência de fomento a atividades ético-inclusivas. É um ambiente de muita harmonia entre pessoas de diferentes orientações, credos, etnias e faixas etárias. Nosso grupo é composto por homens e mulheres que, além de trabalhar e de cumprir com todos os seus deveres sociais e profissionais com responsabilidade, juntam-se para se descontrair de forma muito inclusiva e saudável.

Profissionalmente, atuamos como Assistente Social, Professor Universitário, Jornalista, Cirurgião Dentista, Profissional Liberal, Gerente de Contas, Técnico em Contabilidade, Bancário, Ator, Empresário, Estudante, Artista Plástico, Profissionais Liberais, entre outros. Somos casais homoafetivos, casais héteros, solteiros héteros, solteiros homo (mas acho uma besteira essa substantivação da vida e da orientação das pessoas, pois creio que, antes de qualquer coisa, somos seres humanos capazes e detentores de direitos e deveres, isso deveria ser o reflexo de toda sociedade). Somos filhos, mães e pais de família, irmãos, amigos, amantes, ou seja, pessoas comuns e ao mesmo tempo diferentes.

Peço licença para utilizar um trecho da poetisa Eliza Lucinda, que julgo ilustrar bem meu sentimento de ser o que quer que eu seja agora:

“ Sou homem, mulher

Igual e diferente de fato

Sou mamífero, sortudo, sortido, mutante, colorido, surpreendente, medroso e estupefato

Sou ser humano, sou inexato”

Ah, já ia me esquecendo de falar de CURA, da cura que o mundo precisa, das curas sem as quais o ser humano padece e deixa de ser gente. A violência é crescente, é comum lermos ou assistirmos pela TV às inúmeras notícias de espancamentos e mortes, frutos da intolerância, do desrespeito, da homofobia. Arrisco dizer que a cura para todas essas dores são a Educação e o Respeito, só teremos homens e mulheres mais saudáveis quando forem ensinados a aprender a Ser e a Respeitar a si mesmos e aos outros. Somos únicos no mundo, ao mesmo tempo em que esse mundo é também a continuação do que somos e do que fazemos.

Quero agradecer imensamente à pessoa do Sr. Nelson Marques, Supervisor de Esportes, à coordenação do Ginásio Darcy Reis e aos profissionais que trabalham nesse espaço. Ali, somos sempre recebidos com respeito e atenção. Também à Prefeitura Regional Vila Guilherme/Vila Maria/Vila Medeiros: saibam que estamos unidos aos seus grandes esforços para construir uma São Paulo mais humana.


(*) Juliano Dhui, 34 anos, é filósofo, músico, artista plástico, arte-educador, orientador socioeducativo e Gerente de Núcleo Proteção Jurídico Social e Apoio Psicológico. É natural de Marmelópolis (MG),  onde desenvolve anualmente um trabalho na Secretaria da Cultura. Em São Paulo, desde 2003, esteve sempre trabalhando com a população em alta vulnerabilidade social. Acredita na arte como transformação da vida. Desde 2014 desenvolve trabalhos artísticos juntamente com a Cia. dos Dramaticantes na Zona Norte de São Paulo.


Nota da Redação: Os artigos publicados neste espaço “Opinião” são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do DiárioZonaNorte e nem de sua direção.

 

Organicos

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora