por Aguinaldo Gabarrão (*)

O termo scavengers, designa seres que se alimentam de restos orgânicos, devolvendo-os na cadeia alimentar para servirem de alimento a outros seres vivos.

Para a dramaturgia do escocês Davey Anderson, é a metáfora daqueles que estão à margem da sociedade, mas que existem e podem ressignificar suas vidas e daqueles que estão à sua volta.

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”

Essa frase atribuída ao escritor russo Leon Tolstói se aplica ao texto de Anderson. Ele fala da sua realidade num país distante culturalmente do nosso, mas toca o público pelos dilemas comuns como a solidão, a perda de identidade, o estar à margem do sistema.

A trama não tem rodeios: o profissional Michael Findlater, arruinado e pressionado por problemas financeiros e emocionais, decide forjar sua morte e torna-se um andarilho na busca por outro modo de vida.

Tradição x Inovação

Além da história comum a muitas outras, a dramaturgia utiliza a linguagem narrativa, recurso bem conhecido no teatro, em que a personagem apresenta ou explica a ação. Porém, nas mãos do dramaturgo, o recurso renova-se ao determinar aos atores-narradores as funções de recontar, reescrever ou mesmo intervir criticamente e com bom humor enquanto a ação acontece.

Essa perspectiva sedutora é o que habita os sonhos de muitos de nós: poder voltar atrás e, individual ou coletivamente, reciclar nossas ações, portanto, sermos scavengers (limpadores, catadores) dos nossos desejos e desilusões e transformá-los em algo mais palatável.

A encenação segura

O diretor Francisco Medeiros soube alinhavar com precisão os diversos recursos da montagem para distanciá-la do necessário realismo de algumas cenas. Exemplo disso é o uso dos microfones: a voz amplificada dos atores ressalta o faz-de-conta e a trilha sonora marca frases e pontos de virada das personagens.

Outro elemento importante é a cenografia: espécie de plataforma articulada pelos atores-narradores que permitem outros ângulos de interação e perspectiva da história. Os figurinos e o desenho de iluminação molduram o jogo narrativo e dramático da direção.

“… Scavengers: pessoas em busca de sustento e espaço” – Cia Artera

A pouca profundidade psicológica das personagens, construídas de forma esquemática pelo dramaturgo Davey Anderson é compensada pelo elenco que, para felicidade deste espetáculo, atinge momentos de grande beleza no conjunto.

A encenação da peça, inédita no Brasil, coube a Cia Artera de Teatro, que comemora 15 anos de estrada. Confira, porque a temporada está terminando.


FICHA TÉCNICA

Dramaturgia: Davey Anderson / Tradução: Caio Badner

Direção: Francisco Medeiros

Elenco: Ricardo Corrêa, Davi Reis, Fani Feldman, Gabriela Rabelo e Rogério Brito

Compositor musical e execução ao vivo: Tiago de Melo

Preparação corporal: Vitor Bassi / Cenário: Cesar Rezende Santana (Basquiat) / Iluminação: Fran Barros / Figurino: Cy Teixeira / Comunicação Visual: Alice Jardim Produção: Ricardo Corrêa / Assistência de Produção: Rafael Salmona / Assessoria de Imprensa: Pombo Correio / Realização: Cia Artera de Teatro


SERVIÇO

SCAVENGERS

Categoria: Drama / Classificação: 12 anos / Duração: 80 minutos

Onde: CCSP – Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho

Rua Vergueiro, 1000, Paraíso (Metrô Vergueiro) – Telefone: 3397 4002

Temporada: de 29 de setembro a 5 de novembro

Horário: às sextas e sábados (21h00); domingos (20h00)

Ingresso: R$ 20,00 a inteira / R$ 10,00 (meia entrada) com venda online pelo site Ingresso Rápido ==   Lotação: 321 lugares  == Estacionamento em frente ao CCSP.


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

 

 

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