por Conceição Lourenço (*)

O mês de novembro chegou. Novembro azul, novembro da Consciência Negra. Pra mim,  em primeiro lugar, novembro  é o mês de aniversário da minha rainha-mãe, que está no céu. Não aguento mais ouvir falar em bullying. Em crianças com depressão. Em adolescentes se agredindo até a morte no colégio. E em educadores e pais que parecem não saber lidar com os fatos.

Antes, era assim: Quando eu tinha 13 anos, há 45 anos, estudava em colégio estadual, na sétima série. Na época isso era o máximo do status (colégio estadual). Era longe de casa, mas eu me esforçava e devo muito ao Colégio Padre Manoel da Nóbrega. Se era status, não havia negros no colégio e lá estava eu.

Por conta de Angela Davis, pedi à minha mãe para parar de alisar meu cabelo. E isso virou festa para os “moleques”: “Neguinha, cabelo de Bombril”, TODO DIA no recreio rolava isso, todo dia. Eu não era uma mocinha convencional. Além de gostar de política e Direitos Humanos, a-do-ra-va futebol. Futebol leia-se Corinthians.

Numa quinzena, o Corinthians não estava bem. Perdeu do Juventus (apelidado de Moleque Travesso), pro Noroeste (Bauru) e do XV de Novembro, (Piracicaba). E aí, um dos moleques chegou bem pertinho de mim, que comia meu lanchinho em paz,  e disse: “Ei, cabelo de Bombril, como sou um moleque travesso, vou comer bauru em Piracicaba” ( a piada nem era dele), não pensei, fiquei cega. Virei-lhe a mão na cara com toda minha força. Todos em volta se assustaram. Eu babava de ódio. Ficou um silêncio. Deu o sinal, voltamos pra aula.

Tudo acabou. Acabou nada, ele era bem clarinho de pele e lá ficou meus dedinhos marcados no rosto dele. Quando a mãe dele viu… Encurtando: dia seguinte fui impedida de entrar na aula, enquanto minha mãe não fosse lá. Tadinha da mamãe, viúva, costureira, lá foi ela. Na sala do diretor Tancredi: as 2 mães, o bestão-cara-marcada, eu e o diretor.

Sermão pros 2 lados (MAIOR vergonha pra ele ter apanhado de uma menina), as mães sem saber onde colocar o rosto, pois a mãe dele não sabia que ele me provocara. Eu contei do futebol (o diretor ameaçou rir), mas quando contei do cabelo ele disse: “As pessoas têm cabelos diferentes umas das outras, temos de respeitar…”, nunca me esquecerei do discurso do diretor-professor AntônioTancredi. Os 2 suspensos, 2 dias, não antes de apertar as mãos e prometer não brigar mais… PROBLEMA RESOLVIDO.

Nem no ônibus de volta, nem em casa ouvi uma bronca sequer da minha mãe, ERA O PIOR, pois eu sabia que ela estava brava comigo… rs rs (minha mãe era profissional. Sabia tocar o terror). Acabou a história. Me lembro dela me perguntando: “Quando você fez isso, não pensou em mim?”

Se fosse hoje até poderia entrar como racismo. E se eu não tivesse batido nele, só ele seria suspenso. Mas Tancredi cortou logo, sempre sorria pra mim nos corredores, numa cumplicidade corintiana nossa…  Hoje sou a mulher que sou. Cheia de defeitos, nem boa, nem má. Mas encaro qualquer parada, aprendi a ser forte faz tempo. Continuo gostando de Direitos Humanos e do Corinthians.  Essa coisa de bullying…

Fica a dica: se a ofensa for para o lado do racismo (xenofobia), não devolva, não bata, peça testemunhas! E sempre conte tudo para os pais em casa. E vamos torcer para os pais prestarem atenção nos filhos, o tempo todo, isso chama-se educar.


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: nos finais de semana/sábados >>


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