por Aguinaldo Gabarrão (*) ===

Roma 1973. O adolescente John Paul Getty III é seqüestrado pela máfia da Calábria. A mãe, desesperada, pede ajuda ao avô do rapaz, o magnata americano do petróleo John Paul Getty. O velho recusa, sob a alegação de que se pagar U$ 17 milhões de dólares, terá seus 14 netos seqüestrados.

A lógica é perfeita, pelo menos para Getty, o homem mais rico do planeta e sovina de deixar ruborizado o Tio Patinhas. A história é verdadeira e tornou-se uma novela que alimentou os noticiários do mundo todo por cinco meses até o seu inusitado desfecho.

Acusações derrubam ator ===  Não bastasse esse enredo, o ator Kevin Spacey, protagonista da personagem John Paul Getty, sofreu uma avalanche de acusações por abuso sexual. O ator veio a público se explicar e enrolou-se ainda mais, o que fez os produtores simplesmente “apagarem” Spacey do filme. O ator Christopher Plummer, chamado às pressas, refilmou diversas sequencias em duas semanas, em tempo de o filme estrear na data prevista.

Toda a operação “apaga o Kevin” custou U$ 10 milhões de dólares aos produtores. Eles não quiseram arriscar a perda do capital investido, gesto que seria certamente aprovado pelo bilionário americano, morto em 1976.

Para que tanto dinheiro? === Essa é uma das possíveis perguntas que podemos formular para entender a cabeça de um homem que se cercou de tudo o que o dinheiro poderia trazer. Contudo, nunca teve afeto e consideração por aqueles que estavam à sua volta. O roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, conta em fragmentos pontuais a figura de Getty, a sua ganância em aumentar sua fortuna e possuir obras de arte, sob a alegação de que as mesmas não mudavam, ao contrário dos seres humanos.

Essas informações ajudam a construir traços da personalidade movida pelo desejo incontrolável de trazer para si o belo, como forma de compensar sua absoluta incapacidade de empatizar com o outro e, neste caso, com a situação terrível do próprio neto seqüestrado.

O veterano em grande forma ===  O ator Christopher Plummer, 88 anos, recusou-se a assistir as cenas feitas por Kevin Spacey. Em entrevista a imprensa comentou seu processo de trabalho: “… a melhor maneira é capturar [a sua essência] e fazer da maneira correta, ou você acerta em cheio ou erra miseravelmente”. E Plummer brilha. Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, ele consegue com esmero apresentar as nuances de um homem frágil, sob a figura imponente e determinada, embora aprisionada por seu extremo egoísmo.

O jovem ator Charlie Plummer (não é parente do veterano), traz em sua performance elementos que revelam o estado de suspensão mental em que Getty III mergulha, na medida em que sofre agressões no cativeiro e percebe a indiferença do avô ao não pagar o resgate.

O bom elenco conta, entre outros, com Mark Wahlberg, no papel do ex-agente da CIA e Michelle Williams (Gail Harris), ambos em composições honestas e equilibradas.

O diretor Ridley Scott (Alien, Gladiador), sempre reserva em seus filmes, locações e cenários que se traduzem em belíssimas sequencias. Logo no início do filme, a câmera em travelling (movimento da câmera que acompanha o assunto), mostra em preto e branco a efervescência na Roma dos anos 70. E, as sequencias da mansão de Getty, transmitem a sensação soturna, fantasmagórica e impessoal daquele mundo rico e sem vida.

Na juventude Scott estudou fotografia no Royal College of Art  e adquiriu experiência como designer de cenário para a BBC nos anos 60, o que confere a ele esse cuidado adicional no set de filmagem.

O filme “Todo o dinheiro do mundo” não é um dos melhores filmes de Ridley Scott, mas cumpre o seu papel de provocar nas platéias o indigesto questionamento do quanto a acumulação voraz da riqueza, pouco ou nada pode representar na vida de um ser humano.

Assista ao trailer do filme:           https://bit.ly/2nQXhvt

 


FICHA TÉCNICA

Todo o Dinheiro do Mundo (Título original – All The Money In The World)

Direção: Ridley Scott / Roteiro: David Scarpa

Elenco: Christopher Plummer, Michelle Williams,  Mark Wahlberg, Andrew Buchan, Francesco Bomenuto, Charlie Plummer, Olivia Grant, Romain Duris, Nicola Di Chio, Nicolas Vaporidis, Paola Scotto di Tella, Romain Duris, Roy McCrerey, Stacy Martin, Stanley Treshansky, Timothy Hutton.

Gênero: Suspense e drama / Duração: 135 minutos

Classificação indicativa: anos / País: EUA / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 25 de Janeiro de 2018 (Brasil)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

 

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