por Conceição Lourenço (*)

Outubro de 1981, o feriado seria prolongado. Sabe aqueles que caem na quinta-feira e dá pra emendar a sexta? Então. Resolvemos passar na praia. Meu amigo Manoel , que trabalhava na Prefeitura, tinha um amigo que possuía um apartamento na cidade de Praia Grande.

Na verdade o apartamento era da mãe do rapaz, mas ficava sempre vazio, ninguém nunca ia. A única recomendação do amigo foi: “Minha mãe é idosa, meticulosa, gosta muito de bibelôs, enfeitinhos, cuidado pra não quebrar nada”, ok.

Manoel acertou tudo, e na quarta lá fomos nós. Eu, Manoel e uns 3 amigos. Mais 4 da faculdade (Fiam), mais 3 do trabalho (Serpro- Receita Federal). Doze pessoas rumo à Praia Grande. Fomos pro Terminal Jabaquara e embarcamos juntos, no ônibus.

Chegamos lá por volta de 9 da noite. Chovia muito, foi difícil achar o condomínio, mas tudo bem. Achamos e vamos pro apartamento 48. A chave entrou, mas não girava. Um tentou, o outro, aí veio a Lúcia Helena: “Deixa comigo”. Virou com força e quebrou a chave. Que desespero. E agora??

Fomos na padaria mais próxima pra saber de um chaveiro. Achamos e o moço veio. Chaveiro era (é ) muito caro: “Posso tirar a chave quebrada e abrir a porta, mas uma cópia, só amanhã. Ok, assim foi.

Entramos, exaustos distribuímos as camas e fomos dormir. Eu desmaiei. De manhã, já com alguns raios de sol, ouvi um cão latir em cima de mim, eu dormia no chão da sala. Abri os olhos e vi um par de pernas masculinas, em pé, bem perto de mim. Me sentei e fui bombardeada com gritos, insultos etc. Ou seja, quinta de manhã chegaram os donos do apartamento pra passar o feriado.

O rapaz gritava tanto, que os vizinhos de frente vieram. Enfim, o apartamento era dele, e ele não alugou pra ninguém, desceu, foi no orelhão e chamou a polícia. Polícia que veio rápido, numa Rural Willys verde e branca, com o delegado e dois guardas.

O delegado era calmo. Queria levar todos presos, mas não tinha viatura. Deixou os dois guardas nos vigiando na calçada. Que humilhação! E levou pra delegacia eu, o Manoel e a Lúcia. Nossas coisas todas ficaram no corredor.

Na delegacia, o Manoel pediu, implorou pra subir pra São Paulo pra procurar o amigo, dono do apartamento. Naquele tempo não havia internet, WhatsApp. Ele trabalhava com o sujeito. Não tinha o telefone da casa.

Implorou, implorou e o delegado deixou que ele subisse. Todos ficamos de refém, no sol, sem café da manhã, sem água, sem nada. A hostilidade dos moradores foi tremenda.

Ficamos lá até umas 3 da tarde, quando surgiu o Manoel com o filho da Dona Carmem. Assim: eram 2 blocos, 2 apartamentos 48. Fomos no A, o nosso seria o B. Tudo ficou resolvido. Podemos entrar no condomínio. Todos sem ação. O apê era lindinho, cheio de bibelôs, mesmo.

Começamos armar nosso fim de semana famintos… toca a campainha. Era uma senhora com uma grande  panela de macarronada (quase choro quando lembro). A vizinha de frente…

A partir daí,  tudo correu bem. Os vizinhos ficavam perguntando se precisávamos de algo. Gente, ser presa (detida) é muito ruim. Ser acusada injustamente é pior ainda. Deu tudo certo. Fim de semana na Praia Grande…


(*) Conceição Lourenço — jornalista há 35 anos. Passou por diversas redações e segmentos: Revista Exame, Infantis, Diário de São Paulo, Revista Bárbara, Uma, Chiques&Famosos, Ti-ti-ti. Dirigiu a Revista Raça Brasil. Fundadora da Cal Assessoria de Imprensa. Hoje é Assessora Executiva de Comunicação na Prefeitura Regional do Pirituba/Jaraguá.  << “Crônicas da Conceição”: às 6ªs. feiras >>


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