por  Alarico Rezende (*)

“Meu coração tá pisado/Como a flor que murcha e cai/
Pisado pelo desprezo/Do amor quando se vai/Deixando a triste lembrança/
Adeus para nunca mais/Moreninha linda do meu bem querer/
É triste a saudade longe de você...” 
                   (trecho de Moreninha Linda, clássico gravado pela dupla)

Uma dupla realmente a essência das nossas raízes, ainda hoje uma referência na música caipira. Os irmãos Tonico e Tinoco que cantaram juntos mais de seis décadas  tinham um sonho, que Tinoco um dia revelou: o sonho deles era que nenhum dos dois poderia morrer, para ficar sempre juntos. “A gente sonhava isso, mas não deu certo. Com a morte de Tonico fiquei solo mesmo. Agora que estou ajeitando para cantar com meu filho Tinoquinho. Mas o baque foi muito grande. Eu e o Tonico nunca fizemos um acerto, a gente se dava muito bem”, contou Tinoco.

Prosseguindo, Tinoco ressaltou: “Fomos sócios na música tanto tempo. Aqui nesta sala a gente fazia as músicas. Muitas vezes minha mulher ficava na cozinha com a porta aberta, ela não escutava a gente cantar, a gente cantava baixinho”, explicou Tinoco, acrescentando que três dias depois da morte do irmão, quando foi olhar a agenda viu que tinha mais de trinta compromissos de shows. “Cumpri todos com a banda”, disse, em abril de 1997, em seu apartamento na Mooca (Tonico morava no mesmo prédio. Numa outra entrevista,algum tempo antes, estive com ele e Tinoco). Na época, Tinoco fez questão de esclarecer sua pretensão de continuar: “Estou assim com a cabeça de seguir”, observou.

O último disco gravado por Tonico e Tinoco foi “Coração do Brasil”, que teve participação especial de Chitãozinho e Xororó e Sandy e Júnior. Neste disco eles gravaram O Menino da Porteira (Luizinho e Teddy Vieira), Cabocla Tereza (Raul Torres e João Pacífico), Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira), Moreninha Linda (Maninho/Tonico e Tinoco) e Cana Verde (Tonico e Tinoco).

300 discos de 78 rotações, 86 LPs e 15 CDs – Tonico e Tinoco gravaram 300 discos de 78 rotações, 86 LPs, 15 CDs regravados. Tinoco ainda lembra de quando foram levados pelo Capitão Furtado à Continental para gravar o primeiro disco. “De um lado nós gravamos Em Vez de Me Agradecer, do outro, puseram Palmeira e Piraci com Sertão do Laranjinha”, explicou, completando que não foi nada fácil. “O Vicente Celestino tinha de gravar de costas para o microfone porque o microfone não aguentava. A gente não sabia disso. Nossa voz tinha o mesmo timbre do Vicente. Aí estouramos o microfone. Fomos até expulsos da gravadora. Nos chamaram de tudo quanto é nome, de filho disso, de filho daquilo…Três meses depois voltamos lá. Tivemos que educar a voz”, recordou bem-humorado na época Tinoco.

A primeira entrevista com Tonico e Tinoco foi em maio de 1991, na Sala VIP da TV Gazeta, na capital paulista. Tinoco contou que a dupla surgiu em 1942, quando o Capitão Furtado, na Rádio Difusora, sugeriu Tonico e Tinoco, porque Irmãos Perez parecia nome de dupla espanhola. Mas, muito tempo antes disso, quando eram meninos em São Manuel chegaram a cantar em bares. Eles deixavam a casa humilde de colonos onde moravam na Fazenda Deca Barros e caminhavam 10 quilômetros até o centro de São Manuel. Cantavam horas e horas, muitas vezes de graça, nos bares da cidade. Numa dessas noites foram descobertos por um radialista, quando cantavam em troca de um guaraná. “Fomos cantar na rádio de São Manuel. O cachê não era grande, mas ajudava no sustento da família. Éramos 11 bocas para comer lá em casa”, relembrou Tonico, em 1991.

Depois de São Manuel, segundo Tonico, a dupla trocou de cidade. “Fomos cantar na rádio de Sorocaba, na PRD8. Ficamos mais um tempo no Interior e depois viemos para São Paulo, mas  sem intenção de cantar. Viemos para trabalhar. Trabalhamos em fábrica, como ajudante de pedreiro. Capinei chácara aqui em Santo Amaro”, relembrou na época o violeiro Tonico.

Uma história de cantoria e sucessos de Tonico e Tinoco. Hoje em qualquer canto do País se fala na dupla “Coração do Brasil”. Eles são ponto de referência de muitas novas duplas caipiras.

Ouça os grandes sucessos da dupla, em 1983 – clique: https://bit.ly/2iaauQ6

01) Moreninha Linda / 02) Chico Mineiro / 03) Tristeza do Jeca / 04) Adeus Morena Adeus / 05) Destinos Iguais / 06) Irmão da Estrada / 07) Cana Verde / 08) Pé de Ipê 09) Adeus Campina da Serra/ 10) Curitibana / 11) Carro de Boi / 12) Dois Corações 


Bem, amigos, ficamos por aqui. Daqui a pouco (15  dias) a  gente volta com mais um dedo de prosa, para falar das nossas raízes aqui no DiárioZonaNorte.  Acompanhe-nos nas páginas do jornal Brasil Raiz mensalmente e na Rádio Brasil Raiz: www.brasilraiz.com.br  e www.radiobrasilraiz.com.br. Abraço!!!


(*) Alarico Rezende —  jornalista-compositor-intérprete, edita mensalmente o jornal cultural Brasil Raiz e toca com dedicação a Rádio Brasil Raiz na web:

 www.brasilraiz.com.br e www.radiobrasilraiz.com.br

Leia mais sobre Alarico Rezende na matéria do DiárioZonaNorte: “Alarico Rezende, o caipira que veio montar sua rádio sertaneja na Capital” (13/08/2017) — é só clicar aqui

                    N.R.: os artigos serão publicados quinzenalmente. 


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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