por Aguinaldo Gabarrão (*) 

=== Com seis indicações ao Oscar 2018 (*), a trama elegante e psicanalítica, com ares de filme europeu, é um belo exemplo do bom cinema produzido nas terras do Tio Sam.  ( * veja críticas de outros filmes indicados ao Oscar-2018, no final deste texto ).

O badalado estilista Reynolds Woodcock e sua irmã, comandam nos anos 50 uma maison que atende a alta classe britânica e figuras da realeza. A inspiração dele vem das mulheres com que se relaciona e rapidamente descarta. Mas, a paz no seu ateliê nunca mais será a mesma depois de conhecer Alma, a mulher que se tornará sua musa e amante.

Diálogos ou duelos? === A ideia central lembra outro filme, Rebecca (1940), dirigido por Alfred Hitchcock. Nessa trama, um viúvo aristocrata conhece e casa-se com uma jovem. Ao levá-la para sua casa, a moça é obrigada a conviver com a lembrança sufocante da falecida Rebecca.

O diretor Paul Thomas Anderson (Magnólia), talvez tenha se inspirado nessa história, porém, as semelhanças param por aí. Seu roteiro traz a personagem Reynolds presa à memória da mãe e isso será inventivamente explorado na construção da trama.

Os diálogos sutis foram elaborados de maneira a revelar as complexas personalidades de Reynolds e Alma, e a simbiose crescente que se instala naquela relação de aparente tranqüilidade. O que é dito, apresenta outra intenção e, em escala crescente, torna-se um duelo entre o casal e levará a história a um final inusitado e coerente.

“E tudo é um jogo!” === O ator Daniel Day-Lewis (Em Nome do Pai, Lincoln), segundo o que declarou publicamente, encerrará sua carreira de 47 anos. Esse, portanto, deve ser seu último filme. E ele soube escolher bem como fechar esse ciclo. Impressiona o domínio de Lewis em seu ofício. Cultor da máxima “menos é mais”, sua atuação consegue transmitir as diversas camadas de recalques, medos e de absoluta fragilidade daquela aparente figura austera e seca, perfeccionista ao extremo no seu trabalho e, absolutamente desalinhada nos seus relacionamentos. Ele concorre ao Oscar de melhor ator e, se ganhar, levará sua quarta estatueta.

Por sua vez, Lesley Manville (Malévola), interpreta Cyril, irmã do estilista.  A atriz confere à personagem a aura de uma esfinge indecifrável, com entonação sóbria e perfeita nas intenções e tempo da cena. Nas mãos de uma novata, cairia facilmente na vilã, mas Manville caminha segura na apresentação, quase imperceptível, da mulher que se anula para viver e dedicar-se ao irmão e seu trabalho. Ela também concorre a uma estatueta, na categoria de atriz coadjuvante.

Chama também a atenção a bela Vicky Krieps (O Jovem Karl Marx). Natural de Luxemburgo, a atriz sustenta nos diálogos e nos longos planos o mesmo jogo sutil proposto pelo diretor ao elenco: economia.

“Quando eu era menino…” === O diretor Paul Thomas Anderson é da mesma geração de Quentin Tarantino, que aprendeu cinema assistindo e fazendo edição de filmes em vídeo. Além do encargo de dirigir e escrever o roteiro (o que não é pouco, pode acreditar) também assina a fotografia e a produção. E em todas essas funções ele apresenta competência e unidade no resultado do projeto.

Sua direção é sofisticada nos longos e expressivos enquadramentos. Não há beleza pela simples imposição estética. Ela existe em função do encontro das motivações interiores das personagens em perfeita harmonia com a ambientação.

A luz em determinados momentos, resvala no teatral, mas nunca é de mau gosto. Ela moldura a cena e dá o tom, assim como a belíssima trilha de Jonny Greenwood, com estilo e andamento clássicos e, em outros momentos, arriscadamente experimental.

As músicas acompanham sequencias inteiras, e lembram os ótimos melodramas dos anos 50. Pelo trabalho, Greenwood também recebeu uma indicação ao Oscar.

O filme Trama Fantasma pode surpreender no Oscar 2018, mas independente do resultado que será anunciado no domingo, 4 de março, é um belíssimo trabalho que une o olhar afinado de um diretor com a cumplicidade de grandes intérpretes.

Assista ao trailer do filme:  https://bit.ly/2APcF3P


FICHA TÉCNICA

Trama Fantasma (Título original – Phantom Thread)

Direção, Roteiro e Fotografia: Paul Thomas Anderson / Música: Jonny Greenwood / Elenco: Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Vicky Krieps, Richard Graham, Brian Gleeson.

Gênero: drama / Duração: 1h e 55 minutos

Classificação indicativa: 12 anos / País: EUA / Ano de Produção: 2017

Lançamento: 22 de fevereiro de 2018 (Brasil)


        CRITICAS DE FILMES INDICADOS AO OSCAR-2018

Antes de assistir o “Oscar-2018” (Tv Globo-domingo, 04/03 – após o Fantástico), (re)leia também as críticas do “DiárioZonaNorte” (por Aguinaldo Gabarrão) de outros filmes que concorrem à premiação:

“Com Amor, Van Gogh” (link: https://bit.ly/2I0RpZh – em 15/12/2017),

“Star Wars – Os Últimos Jedi” (link: https://bit.ly/2oFnTAd – 26/01/2018),

“Todo o Dinheiro do Mundo” (link: https://bit.ly/2FmL1x3 – 09/02/2018) e

“A forma da Água” (link: https://bit.ly/2F6AKkX – 24/02/2018).


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.

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