Por Jânio Pires (*)

A primeira aparição da denominação Tucuruvi consta oficialmente em uma escritura de compra e venda de uma área com data de 1856.  Segundo a versão existente que é atribuída ao nome do bairro, Tucuruvi tem origem no Tupi-Guarani que significa gafanhoto verde e é a versão mais aceita por pesquisadores, o bairro foi formado em sua origem por pastagens de gado em fazendas da região; habitat ideal para esse tipo de inseto.

Existem outras versões mais folclóricas para o curioso nome como a de ser derivado da palavra Taquaravi, que em Tupi significa taquara verde, vegetação típica do local. Outra teoria para a origem do nome relaciona-o aos tocos ruivos. As propriedades eram demarcadas com tocos cor de ouro, mas que se transformavam em ruivos com o tempo e a ação do sol e da chuva.

A história ===  Na ocasião de sua fundação predominava apenas a verde paisagem dos sítios e fazendas que existiam na época, dos quais os mais conhecidos eram o Lavrinhas, Pedregulho e Tapera Grande. O primeiro núcleo do povoamento data de 24 de outubro de 1903 quando o inglês Willian Harding adquiriu uma fazenda denominada Itaguaravi, atual Parada Inglesa e nove anos após a transação, em 1912, fundou a Villa Harding, onde construiu sua imponente moradia, que também lhe servia de escritório, que passou a chamar-se Palacete Anglo-Parque. Era localizado no topo da colina na antiga Avenida Pires do Rio, o que proporcionava aos visitantes um lindo panorama da cidade de São Paulo.

Do núcleo inicial sobrou apenas o palacete de 7 mil m² construído por Harding e que foi demolido no final da década de 70; e após quase sete anos, em seu lugar foi construído uma praça denominada Arquiteto Flávio Império que teve curto período de existência e acabou dando lugar ao prédio que abriga hoje a sede da Prefeitura Regional Santana/Tucuruvi/Mandaqui.

Aos poucos suas propriedades foram sendo vendidas para dar lugar ao bairro que surgia e com o consequente aumento da população, o Tucuruvi foi perdendo sua característica rural.

Em pouco tempo o bairro foi se transformando em área tipicamente urbana, com a construção de casas populares e alguns prédios comerciais concentrados nas imediações da estação de Trem que foi construída e inaugurada em 1913, o que contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento e crescimento do bairro. Com a chegada de novos moradores, que escolheram se radicar na região, outros sítios e fazendas foram loteados e vendidos. Em 16 de agosto de 1914, Claudino Ignácio Joaquim vendeu o sítio Lavrinhas para o senhor Henrique Mazzei que dividiu os 500 mil metros quadrados em lotes de 10×40 e 10×50 e os vendeu em pequenas prestações.

Quem foi William Harding ===  William Harding nasceu em 27 de agosto de 1856, no Condado de Somerser, Inglaterra e chegou ao Brasil com 33 anos de idade em 1889. Em 1892 o Governo do Estado de São Paulo encampou a Companhia Cantareira e Esgotos (fundada em 1877) que planejava construir um reservatório no alto da serra da Cantareira, a 900 metros de altitude, para ampliar o abastecimento de água da Imperial cidade de São Paulo, porém, constatou-se a existência de um problema; seria necessário primeiro construir caminhos ou estradas no meio da mata e como ainda não existiam caminhões, o material e as pesadas tubulações de ferro teriam de subir a serra arrastadas por juntas de bois.

Diante dessa necessidade, logo após a assunção pelo Governo, imediatamente deu-se início aos estudos de viabilidade para a construção de um Tramway de serviço para ligar os mananciais de água potável da serra ao ponto mais conveniente desta capital. Para construir essa pequena ferrovia havia sido chamado o engenheiro inglês William Whitmann, o qual convocou João Maxwell Rudge e William Harding para ajudá-lo no projeto e na construção do Tramway, ocasião em que Harding conheceu e teve contato com a região, onde viria mais tarde adquirir uma fazenda.

O Trem da Cantareira ===  O Tramway da Cantareira foi construído, inicialmente, para o transporte de materiais, que serviriam para a canalização dos mananciais, e para a construção de um reservatório de água potável no alto da Serra da Cantareira, para o abastecimento da cidade de São Paulo.

Essas obras foram realizadas em 1894, sendo que no início do século seguinte por reivindicação dos moradores de São Paulo aos domingos e feriados tornou-se trem de recreio para passeios e posteriormente como trem de passageiros com viagens diárias que atendia os trabalhadores e toda a população da época.

Em 29 de dezembro de 1908, o governo autorizou a construção de um ramal que partia da estação Areal, sentido à direita do ramal Cantareira, até o local chamado Guapira – que após 1930 passou a denominar-se Jaçanã -, em especial ao Hospital dos Morféticos – atual Hospital São Luis Gonzaga e depois ao Asilo de Mendicância e dos Inválidos – hoje Hospital Geriátrico D. Pedro II – e em 1910 foi construída e inaugurada uma estação com o mesmo nome do bairro Guapira, que depois passou a chamar-se estação Jaçanã.

O trecho entre as estações Areal e Guapira (Jaçanã após 1930), inicialmente era direto de uma estação a outra. Em 1913 foi aberta a primeira estação intermediária, a de Tucuruvi e assim outras estações passaram a ser abertas em toda extensão do ramal até atingir Guarulhos, com a inauguração da estação Guarulhos em fevereiro de 1915.

O Tramway da Cantareira contava com 35 km de extensão, tendo seu ponto inicial na estação Tamanduateí, Rua João Teodoro, onde, após 1 km de seu início, se ramificava em dois ramais: seguindo um à esquerda com término na estação Cantareira e outro à direita com destino a Guarulhos. Os trenzinhos saiam de hora em hora quando não de duas em duas horas. Com uma bitola de 60 cm, popularmente conhecida por bitola estreita, a viagem se tornava desconfortável e perigosa para seus passageiros. As fagulhas expelidas pela chaminé da Locomotiva inutilizavam os trajes, queimando-lhes os chapéus. Em 1965, o “Trenzinho da Cantareira” apitou pela última vez, pois com o desenvolvimento da cidade o trajeto da estrada de ferro foi extinto e o transporte de passageiros substituído por ônibus.

A Sede do Distrito ===  O Distrito de Paz de Tucuruvi possuía uma área de 89 km², anteriormente denominado Cantareira, foi desmembrada do Distrito de Santana, pela Lei 2104 de 29 de dezembro de 1925, e instalado no bairro Tremembé sua primitiva sede, em 23 de março de 1926. O primitivo Distrito da Cantareira passou oficialmente a denominar-se Distrito do Tucuruvi.

Por entenderem ser injusto dado a sua localização mais central, sua população, sua denominação “Tucuruvi” e sua subordinação ao afastado e quase incógnito bairro Tremembé daquela época, os senhores João Gualberto de Almeida Pires, Manuel Gomes, Manoel Tomé Novaes e o Capitão Ary Gomes empreenderam e levaram a cabo a transferência da sede do Distrito e com ela veio a mudança de denominação para Subdistrito de Tucuruvi, Decreto nº 6618 de 21 de agosto de 1934, data que Tucuruvi passou por direito a ser um Distrito da região norte de São Paulo, onde, em prédio próprio situado na Avenida Tucuruvi, 47-A, foi instalado o Juizado de Paz, Registro Civil e Tabelionato.

Características ===  Tucuruvi tem um dos melhores climas da cidade, em parte devido à proximidade com a Serra da Cantareira. Situado apenas a seis quilômetros do centro da cidade e com uma população aproximada de 98 mil habitantes, espalhadas em uma área geográfica com extensão de 9 km², o Distrito de Tucuruvi é formado pelos bairros, Tucuruvi; Parada Inglesa; Vila Gustavo; Vila Mazzei; Jardim França e Jardim Barro Branco.

O distrito abriga a sede da Academia de Polícia Militar do Barro Branco, que fica no bairro do Jardim Barro Branco, em mesmo local o Hospital Militar e o Presídio Militar Romão Gomes. A estação terminal Tucuruvi do Metrô, ocupa um local próximo onde antes foi a estação de Trem da Cantareira, tendo um de seus acessos em frente à Colina do Tucuruvi, local onde existiu o palacete do inglês William Harding e primeiro núcleo povoamento do bairro, que hoje sedia em novo prédio, a Subprefeitura Santana – Tucuruvi.

Curiosidades  ===   No dia 4 de maio de 1918, era celebrada a primeira missa, ainda em instalações precárias, no bairro. Em 6 de outubro desse ano, foi lançada a pedra fundamental da Igreja do Menino Jesus do Tucuruvi, que ainda hoje é um dos símbolos do bairro. Ainda naquele ano, foi fundada a Escola Noturna da Associação Beneficente do Tucuruvi. A primeira escola pública fundada em 24 de fevereiro de 1922, Escola Reunidas do Tucuruvi. O primeiro diretor foi o professor Nestor Pereira Leite. Já em fevereiro de 1925 foi criado o Grupo Escolar do Tucuruvi, na Rua Ausônia, com 12 classes. O diretor foi o professor Antonio M. Rosa. Em 29 de setembro de 1938, foi inaugurado o Grupo Escolar Silva Jardim. O diretor foi o professor Antonio M. Rosa.

O primeiro cinema fundado no Tucuruvi foi inaugurado em 14 de novembro de 1925, chamava-se Cine Teatro Rio Branco, na Avenida Pires do Rio, atual Avenida Tucuruvi, pertencente à empresa Dinis S. Magalhães, comportava 500 pessoas e exibia sessões duas vezes por semana. O Cine Tucuruvi foi inaugurado em 22 de fevereiro de 1941. O próximo cinema a se instalar no Tucuruvi foi o Cine Valparaizo, que por muito tempo foi considerado a maior sala de projeções cinematográficas da América Latina.

Na época, o clube mais famoso no bairro foi o Clube Atlético Tucuruvi, cuja sede funcionava no pavimento superior da padaria Central, que ficava na passagem de nível do trem com a Avenida Pires do Rio, na década de 40 o presidente era o Sr. Ambrósio Augusto. No dia 1° de dezembro de 1913 entrou em operação a Estação do Trem Tucuruvi. O primeiro casamento foi do senhor Antonio Francisco Alves e Dona Cesária de Abreu, no dia 1° de setembro de 1934. O juiz de Paz foi o Senhor Manuel Pereira Gomes. O primeiro núcleo escoteiro do Tucuruvi autorizado pela Associação de Escoteiros do Brasil foi criado em 07 de setembro de 1918, mesma data em que o alferes Ary Gomes, foi diplomado instrutor da tropa e responsável pelo núcleo.

Metrô == Tucuruvi possui uma das estações da linha azul do Metrô de São Paulo. Foi inaugurada no dia 29 de abril de 1998. É a última estação da linha azul sentido norte, sendo que, após a mesma, existe apenas o terminal de manobras e estacionamento de trens. Localiza-se na Avenida Doutor Antonio Maria Laet, 100, no bairro Tucuruvi, na Zona Norte. Trata-se de uma estação semienterrada, com plataformas laterais revestidas por persianas que permitem a entrada natural de ar e luz em seu interior. Tem 8630m² de área construída.

Possui dois acessos sendo um para a Avenida Doutor Antonio Maria Laet e outro na direção sul, junto a uma escadaria para os usuários que desejam acessar a Rua Paranabi ou a Avenida Tucuruvi. Sua estrutura é toda em concreto aparente e possui vários bloqueios eletrônicos e acesso para pessoas portadoras de deficiência. A capacidade da estação é de 30 mil passageiros no horário de pico. E também a Estação Parada Inglesa que é a próxima estação após Tucuruvi e situa-se na Avenida Luiz Dumont Villares no bairro de mesmo nome.


 

(*) Jânio Pires é jornalista,  memorialista de história e consultor de marketing cultural.Nascido e radicado na capital de São Paulo, no Tucuruvi. Atualmente, exerce a função de Assessor Executivo de Comunicação na Prefeitura Regional Casa Verde/Cachoeirinha/Limão.

 

 

Natal 2017 CN

5 COMENTÁRIOS

  1. Que jóia,nasci em Tucuruvi na av Mazzei ,fui batizada na igreja Menino Jesus.minhas filhas estudaram no colégio São Paulo da Cruz…

  2. Olá Jânio Pires e pessoal do Diário Zona Norte, gostaria de dizer que gostei muito da matéria sobre o nosso querido bairro, e que acesso o site de vocês com regularidade para saber notícias específicas aqui do Tucuruvi. Eu gostaria também de aproveitar para fazer uma observação: O bairro da Água Fria também é parte integrante do subdistrito do Tucuruvi, inclusive, várias placas de ruas aqui no bairro tem isso escrito.
    Um forte abraço, e sucesso para vocês e nossa região.

  3. Pois é em 1968 ainda restavam essas imagens quando fui trabalhar na Padaria Aguiar que aparece nas fotos o balcão e prateleiras eram as mesmas

  4. Gostei muito déssa reportagem, morei na R. Willian Harding, me casei na Igreja Menino Jesus,frequentei o cine Tucuruví e o cine Valparaizo, conheci à bandinha do Fidalgo, bons tempos, agora móro na Parada Ingleza, lugar muito bom, pois éra frustrada pois em Tucuruví não tinha praça, agora móro em frente uma, kkk. E estudei no Grupo Silva Jardim. Obg. pela bela reportagem, parabéns !!!!!

  5. Esqueceram do cine Fidalgo que foi o segundo e a estação de trem ficava um pouco mais acima próximo a Av Tucuruvi

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