por Aguinaldo Gabarrão (*)

Minas, Serra Diamantina, 1821. Um grupo de escravos acorrentados caminha debaixo de forte chuva. Há negros livres das correntes, porém em situação igualmente degradante: são capatazes sob as ordens do senhor, que segue à frente, indiferente ao sofrimento daqueles homens.

A partir daí, desenrola-se a história do patriarca Antonio, que perde sua esposa durante o trabalho de parto e tempos depois casa-se com uma menina, deixando-a com frequencia sozinha e incomunicável por conta de suas viagens, o que provocará um encadeamento de fatos que mudará a vida de todos.

O roteiro e a fotografia: equilíbrio e plasticidade

O roteiro de Daniela Thomas e Beto Amaral, muito bem estruturado no encadeamento da trama, tem diálogos curtos e silêncios que preenchem de significados a representação daquele universo patriarcal, onde Antonio faz suas próprias leis e aplica o que entende por justiça, sob a inquietante submissão de todos à sua volta.

A economia dos diálogos, associada à fotografia icônica em preto e branco de Inti Briones, conduz os sentidos do espectador para os variados matizes daquela vida seca, de brutalidade surda contra a população negra e nas relações sexuais do estrato social dominante, que fazia da cultura do estupro algo natural e aceitável.

Um quebra cabeças de imagens – a montagem

Por sua vez a sequencia de diversas cenas apresenta de forma bastante eficiente o conceito de montagem do velho e bom cinema russo: duas imagens diferentes podem criar contrastes entre si, choques, significados inesperados e obter no plano seguinte, a síntese ou levar o espectador a outros níveis de entendimento.

Assim, há enquadramentos que parecem revelar o óbvio e, no plano seguinte, mesmo com a ausência ou ruptura do diálogo, obrigam o público a pensar, a fazer novas conexões daquele caldo grosso de sentimentos reprimidos, algo somente possível por meio do competente trabalho de montagem de Estevan Schilling e Tiago Marinho.

A cuidadosa reconstituição histórica

A direção de arte recria com esmero o ambiente rural do período posterior ao ciclo dos diamantes. Os belos figurinos de Cássio Brasil (Falsa Loira e Linha de Passe) foram confeccionados sem o uso de máquinas de costura, o que confere no resultado, aspecto artesanal e verossimilhança com a realidade das roupas produzidas à época.

Atores e Direção

O elenco encabeçado pelos atores Adriano Carvalho, Roberto Audio e Sandra Corveloni realizam um trabalho interiorizado, minimalista e de grande impacto. A estreante Luana Tito Nastas (a menina Beatriz) foi uma acertada aposta. E todo o elenco foi conduzido para o mesmo patamar estabelecido pela direção: precisão, economia e tônus.

A diretora Daniela Thomas (Terra Estrangeira e Linha de Passe) transita com muita propriedade nesse universo histórico tão pouco explorado por nosso cinema. Porém, o ponto principal do seu discurso, não é, exclusivamente, a tratativa do terrível período da escravidão, mas o que está em suas entranhas: a indiferença e paralisia dos sentimentos de afeto, que permitem àquela sociedade o mesmo que hoje acontece conosco: a aceitação da violência em suas modalidades mais gritantes ou silenciosas, sob o verniz do socialmente e culturalmente aceitável.

O filme Vazante é belíssimo até a sua última e conclusiva imagem. 

Assista ao trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=7g0OfzwETcs


FICHA TÉCNICA ===  Direção: Daniela Thomas / Roteiro: Daniela Thomas e Beto Amaral — Direção de Fotografia: Inti Briones / Montagem: Estevan Schilling, Tiago Marinho — Elenco: Adriano Carvalho, Luana Tito Nastas, Roberto Audio, Sandra Corveloni, Juliana Carneiro Da Cunha, Jai Baptista, Toumani Kouyaté, Vinicius Dos Anjos, Fabrício Boliveira, Alexandre De Sena, Adilson Maghá, Geisa Costa, Maria Isadora, Kelle Das Graças Lopes, Maria Helena Dias, Dinah Feldman, Vasco Pimentel, Adão de Fátima Gomes, Adelsson Gonçalo Higino, Maria Aparecida de Jesus Fátima —  Diretor de Produção: Cristina Alves / Direção de Arte: Valdy Lopes — Figurinista: Cássio Brasil / Maquiagem: Rosemary Paiva — Produtores: Beto Amaral, Maria Ionescu, Sara Silveira / Coprodutores: Pandora Telles, Pablo Iraola / Produtor Associado: Fernando Meireles —  Coprodução: Dezenove Som e Imagem, Cisma Produções, UKBAR Films e Globo Filmes / Distribuição: Europa Filmes

Gênero: Drama / Duração: 107 minutos

Classificação indicativa: 14 anos / País: Brasil e Portugal / Ano de Produção: 2017

Lançamento: de 9 novembro de 2017  


SERVIÇO * (Confirme os horários)

CAIXA BELAS ARTES

Rua da Consolação, 2423 – Consolação – São Paulo ==  Sala 6: 15h20

PLAYARTE BRISTOL 3

Avenida Paulista, 2064 – Bela Vista – São Paulo

Horários: 14h20 / 16h50 / 19h20 / 21h40

SHOPPING BONSUCESSO 5

Estrada Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, 5308 – Jardim Albertina, Guarulhos

Horários: 13h50 / 18h40


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator e dramaturgo. Iniciou em 1989 sua trajetória profissional no teatro com o espetáculo “Halloween, o dia das bruxas”, do dramaturgo Nery Gomide. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações: Jayme Compri, Hamilton Saraiva, Eugênia Thereza de Andrade, Fabio Caniatto e Antônio Abujamra entre outros. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.

Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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